apêndice ao catecismo
quarta-feira, 10 de junho de 2020: fotografia de uma procissão
para Conceição Evaristo
Para muitos cidadãos do mundo, a reunião pública de uma multidão que um rito demanda é a única oportunidade de participar em uma atividade coletiva sem fins lucrativos. O rito público também é a única oportunidade de esbarrar no outro, seguido de outro, e de outro, todos impessoais, toques instantâneos, mas incessantes. A comunidade se revela ao iniciado daquele rito com forma material, não mais uma abstração do discurso moral, político ou estético. Mais do que isso, a comunidade se revela a partir do iniciado, que é parte integrante dessa novidade que jamais transcende o neófito, mas emana de sua iniciativa: enquanto houver o desejo pela vida comunitária, essa ainda será possível de ser vivida. Não por mim, mas por todos nós.
A procissão católica é um desses ritos, que também guardam para si uma qualidade que se extingue cada vez mais na sociedade da informação; refiro-me ao mistério. Desvelar os significados de um ato de fé talvez não seja mais do que destituí-lo de significado. A curiosidade poderia esquadrinhar essa peça religiosa e formular uma ciência totalmente voltada ao estudo dos passos devocionais. O que, muito provavelmente, já foi feito em algum episódio desses séculos de desencantamento do mundo promovido pela vontade de saber do homem moderno. Uma vontade que nunca se satisfaz, voltando-se constantemente para a voragem do próximo objeto de escrutínio lógico, igualmente destruído pela torpeza dessa criança, a moderna razão humana.
Quando os participantes de uma procissão caminham de um lugar a outro, com paramentos estranhos ao olhar contemporâneo, numa determinada hierarquia, num ritmo tal, entoando o que parece ser de outro mundo, carregando consigo algumas velas de cera e imagens de gesso, tenham certeza de que essa é uma travessia no tempo, não só no espaço. Em um tempo que prescinde dos indivíduos, mas depende das agremiações para existir. É o tempo em que o medo da morte foi vencido pela regra da vida. O tempo em que basta andar, olhar adiante, mexer os lábios para repetir palavras antigas, impensáveis, porque nesse tempo a tortura de pensar foi abolida; e basta andar, um passo após o outro, sem qualquer ruptura nesse simples movimento, marcado pela entrada, repetitiva, cíclica, eterna, do ar nos pulmões. E, finalmente, quando os passos encontrarem seu fim, o tempo desaparecerá, mas o devoto continuará andando, agora na sua solidão, não mais colegiado ao corpo de sua caravana, como se a vida fosse um mero intervalo temporal, entre o fim e o começo. Eis o mistério.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021: uma hagiografia
para o sonho de Peter Hujar
Se eu fosse devoto de São Sebastião, eu diria que ele foi perseguido e morto por adorar o Cristo Jesus em uma época em que o cristianismo ainda estava para florescer no deserto da moral pública. Mas eu sequer sou católico. Por isso, apresentarei outro mito, inventado agora, segundo o qual o belo Sebastião foi entregue à morte porque era moço e não envelhecia, enfurecendo os homens mortais que, para não esmorecer, inventaram a pintura e a escrita, a linguagem, e, com ela, a volta à vida depois da sepultura. Homens que também se fiavam na continuidade de si através de sua prole juvenil, os filhos, os netos e os filhos e netos desses: ao ultrapassar a mocidade, eles se entregavam ao despudor do sexo artesanal, para fabricar novos vasos contendo a perdida beleza do pai. Sebastião era único e não necessitava de uma linha de produção de parentesco para sobreviver. Ele apenas vivia, despido de todo traço humano, ou seja, de traço viril, como um deus que se desfaz em carne viva.
O moço divino despertava, então, os sentidos dos mortos em potencial, que viram nele um algoz e uma vítima, não simultaneamente, antes, pois, viram um algoz com seus olhos míopes e anteviram, em uma miragem do espírito, a vítima em que ele se tornaria. Ataram, daí, o monstro gracioso a um tronco de madeira, estrutura fálica, coluna da indústria genealógica, e o açoitaram com seus instrumentos de prazer, flechadas que arrebentavam o corpo daquela perfeita criatura, porém, mais bela à medida que se humanizava. O corpo nu, sangrando, delgado, nem macho, nem fêmea, excitava as testemunhas do suplício mais do que as enojava, transtornando o desejo de vingança em tensão sexual, a tragédia em drama cômico. Eram, enfim, de um Cupido as flechas que marcaram para sempre a imagem desse ídolo, entregue ao gozo do desaparecimento material, orgasmo último da espécie humana, que, no entanto, não o matou.
Da morte de São Sebastião não há imagem para se venerar. O que se venera são representações de sua fadiga triunfal: transcendendo a carne ferida sem abandonar o corpo físico, rígido, o soldado de Roma convertido em soldado cristão se converteu, placidamente, em um soldado de barro. O divino nele morreu. O humano morreria no próximo martírio. Mas o culto ritual a essa metamorfose, cujo resultado sempre será a morte de um si mesmo pela vida de outro em si ou de si no outro, por amor ao outro, esse ainda não desapareceu. (Vejam como as rosas do jardim, arrancadas para exalar seu cheiro na humilde casa dos apaixonados, apodrecem. Elas não se queixam de dor, não coram de vergonha, não sorriem ou choram, de tristeza ou de felicidade. Essas flores encarnadas não se movem na presença das tesouras de poda do jardineiro. As rosas nada podem diante do elemento humano. A não ser impressioná-lo com a infinitude de sua beleza mórbida.)
sexta-feira, 24 de setembro de 2021: refeição noturna
— Tem uma mosca no meu prato!
O garçom se aproxima:
— Essa mosca... é Jesus Cristo.
Choro e lamber de dedos.